Quem é você?
O maior desconhecido da sua vida pode ser a pessoa que olha para você no espelho todas as manhãs.
Há uma pergunta que parece absurdamente simples, mas que, quanto mais penso nela, mais impossível ela se torna.
Quem é você?
Passe alguns minutos tentando responder sem dizer seu nome, sua idade, sua profissão, seu curso, sua religião, sua nacionalidade ou qualquer outra característica que possa ser escrita em um documento. É mais difícil do que parece.
aprendemos a vida inteira a nos identificar por aquilo que fazemos, nunca por aquilo que somos. Desde pequenos, nos perguntam o que queremos ser quando crescermos, em qual faculdade queremos entrar, com o que queremos trabalhar, onde queremos morar. Quase todas as perguntas sobre identidade acabam sendo, na verdade, perguntas sobre desempenho.
E, aos poucos, confundimos as duas coisas.
Começamos a acreditar que somos o nosso currículo, o nosso círculo social, as nossas opiniões, os nossos gostos. Mas basta perder uma dessas coisas para perceber que elas nunca foram suficientes para responder quem somos.
Então a pergunta continua em pé.
Quem é você?
existe uma resposta?
Nós gostamos de pensar que existe uma essência escondida dentro de nós, esperando para ser descoberta. Como se, um dia, pudéssemos finalmente dizer: "agora descobri quem eu sou
Heráclito, um filósofo, provavelmente discordaria.
Para ele, o ser humano não é uma estátua sendo esculpida até ficar pronta. O ser humano é um rio.
E qual é a característica de um rio?
Ele nunca para.
A água que passa agora não é a mesma que passará daqui a cinco segundos. Mesmo assim, continuamos chamando aquele rio pelo mesmo nome.
Com as pessoas acontece algo parecido.
Talvez ninguém descubra quem é. Talvez passemos a vida inteira nos tornando alguém.
Ainda que estejamos em constante mudança, ainda que nossas ideias evoluam, nossos sonhos mudem e nossas certezas desapareçam, continuamos sendo alguém. Existe uma tendência de acreditar que só poderemos dizer quem somos quando estivermos completos. Como se fosse preciso alcançar uma versão final de nós mesmos antes de termos uma identidade.
Mas ninguém chega a essa versão.
A vida não funciona assim.
Somos incompletos aos quinze, aos trinta, aos sessenta e aos noventa anos. Sempre haverá algo para aprender, desaprender, reconstruir ou abandonar.
Somos alguém justamente no processo. Nossa identidade não nasce quando tudo está pronto; ela se revela enquanto estamos nos tornando.
Mas, se somos incompletos, como posso responder quem sou?
Estar incompleto não significa estar vazio. Significa apenas que ainda há espaço para crescer.
Uma árvore jovem não deixa de ser uma árvore porque ainda vai crescer. Um livro não deixa de existir porque ainda faltam capítulos. Da mesma forma, nós não deixamos de ser alguém porque ainda estamos mudando.
Quando digo "eu sou", não estou fazendo uma declaração eterna. Estou descrevendo a pessoa que existe neste momento da minha história.
A obsessão por encontrar uma versão definitiva de si mesmo é uma tentativa de escapar da mudança. Mas viver é justamente aceitar que a identidade não é uma fotografia pendurada na parede. É um rio. Ele continua sendo o mesmo rio, embora nenhuma de suas águas seja exatamente a mesma de ontem.
Como posso fazer o outro saber quem sou?
ninguém tem acesso direto à nossa consciência. Ninguém enxerga nossos pensamentos, nossas intenções ou a forma como interpretamos o mundo. Tudo o que as pessoas conhecem sobre nós passa por um filtro: aquilo que conseguimos expressar.
não existe ninguém que conheça você por completo. Nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem a pessoa que passa a vida ao seu lado.
Todos conhecem uma versão de você. Uma versão verdadeira, mas ainda assim incompleta.
Porque existe uma parte da nossa existência que nunca consegue ser traduzida em palavras. Há medos que nunca contamos, pensamentos que nunca verbalizamos, lembranças que nunca compartilhamos.
por isso que, às vezes, sentimos que ninguém nos entende. Não necessariamente porque as pessoas não se esforçam, mas porque existe uma distância inevitável entre aquilo que somos e aquilo que conseguimos mostrar.
Conhecer alguém nunca foi acessar sua essência, sempre foi interpretar seus sinais.
É mais fácil perguntar "o que você faz?", "onde você mora?", "o que você estuda?". Essas perguntas organizam as pessoas em categorias. "Quem é você?" desfaz todas elas.
No fundo, talvez evitemos essa pergunta porque ela nos obriga a reconhecer que o outro é um universo, e não um rótulo. E universos não se resumem em poucas palavras.
Sou alguém em construção. Carrego memórias, sonhos, medos, escolhas e contradições. Não sou apenas o que fiz, o que estudo ou o que os outros enxergam. Sou também aquilo que ainda estou me tornando.
Não posso dizer exatamente quem sou, porque ainda estou vivendo. Mas posso dizer quem escolho ser a cada dia.
Quem somos quando não conseguimos nos reconhecer?
Se alguém te perguntasse "Quem é você?"
Vocês saberiam responder? Vocês teriam informações suficientes de si para passar pros outros?
Fiz essa pergunta no grupo da The Atelier
E um leitor/leitora respondeu que não sabia quem era porque estava vivendo um episódio de depressão. Aquela resposta me fez pensar: será que deixamos de ser alguém quando não conseguimos nos reconhecer? Ou será que existem momentos em que a dor fala tão alto que não conseguimos ouvir nossa própria voz?
às vezes não conseguimos responder "quem sou eu?", mas isso não significa que deixamos de existir como alguém. Significa apenas que, por um tempo, a dor ocupou um espaço que antes era da própria voz.
A depressão, o luto, a ansiedade ou qualquer sofrimento profundo podem embaralhar nossa percepção de nós mesmos. Eles podem fazer com que tudo aquilo que parecia sólido pareça distante. Nossos gostos deixam de fazer sentido, nossos sonhos parecem desaparecer, nossa personalidade parece silenciosa.
A identidade não desaparece porque você não consegue enxergá-la. Ela pode ficar encoberta, confusa, até irreconhecível, mas continua ali. Assim como o sol não deixa de existir quando o céu está coberto por nuvens.
nos momentos mais difíceis, a pergunta não deva ser "quem eu sou?", porque talvez você não tenha forças para respondê-la.
E se a pergunta for apenas: "O que ainda existe em mim, mesmo no meio dessa dor?"
Quem você seria se tirassem tudo de você?
Imagine que amanhã você perdesse sua profissão.
Seu diploma.
Seu dinheiro.
Sua casa.
Seu relacionamento.
Sua fama.
Seus seguidores.
Até mesmo o reconhecimento das pessoas.
O que sobraria?
Essa pergunta parece cruel, mas talvez seja uma das formas mais honestas de descobrir quem somos.
Porque passamos tanto tempo nos identificando com aquilo que possuímos que esquecemos de perguntar quem permanece quando tudo isso desaparece.
É por isso que tantas pessoas entram em crise depois de uma demissão, de um divórcio ou da aposentadoria. Não perderam apenas um emprego ou um relacionamento. Perderam a identidade que haviam construído em torno deles.
Mas uma identidade que depende totalmente das circunstâncias sempre corre o risco de desaparecer junto com elas.
Afinal, por que eu deveria dizer quem sou?
Existe uma ideia que me persegue enquanto escrevo este texto.
E se eu não devesse conseguir responder?
Ou melhor: e se eu não devesse precisar responder?
Vivemos em uma sociedade obcecada por definições. Queremos encaixar pessoas em categorias porque isso torna o mundo mais fácil de entender. "Ela é extrovertida." "Ele é tímido." "Ela é inteligente." "Ele é conservador." "Ela é de esquerda." "Ele é médico."
Mas seres humanos não são etiquetas.
No instante em que nos definimos completamente, corremos o risco de parar de crescer.
Porque uma definição tem algo de definitivo. Ela fecha possibilidades. Enquanto a vida faz justamente o contrário: abre.
Talvez eu não queira responder quem sou porque ainda estou me tornando alguém que nem eu conheço.
E isso não é falta de identidade.
É liberdade.
Liberdade para mudar de ideia sem sentir que traí quem eu era.
Liberdade para abandonar versões antigas de mim.
Liberdade para descobrir interesses que hoje nem consigo imaginar.
sinceramente, acho que prefiro viver em construção do que passar a vida inteira preso a uma definição que um dia deixou de me representar.
Mas, e se eu tiver que responder? O que eu falo?
você não precisa procurar uma frase bonita.
Nem uma definição perfeita. Diga a verdade. Diga quem você é hoje.
Porque essa é a única versão de você que realmente existe.
Você não precisa dizer que já encontrou seu propósito, que entende completamente a própria personalidade ou que sabe exatamente para onde está indo.
Você pode simplesmente dizer:
"Sou alguém que ainda está aprendendo."
"Sou alguém curioso."
"Sou alguém que erra, muda de ideia, ama, perde, recomeça e continua tentando."
a resposta mais bonita para "quem é você?" não é uma lista de características, mas uma demonstração de humanidade.
ser alguém nunca significou estar pronto. Significou continuar existindo apesar das mudanças, apesar das dúvidas e apesar das versões que deixamos para trás.
Então, se um dia alguém perguntar quem você é, não tenha medo de responder com honestidade.
Você não precisa apresentar uma versão definitiva de si mesmo. Basta apresentar a pessoa que você escolhe ser, hoje.
Não tenha vergonha de dizer quem você é. Fale de si. Quando escondemos nossa essência por medo de rejeição, também impedimos que as pessoas nos conheçam de verdade. E ninguém consegue amar aquilo que nunca teve a chance de conhecer. Dê espaço para que os outros encontrem você, não a versão que você criou para agradar, mas a pessoa que realmente existe. Permita-se ser amado por quem você é, não por quem esperam que você seja.
Somos um entre mais de 8 bilhões de seres humanos. Por dentro, somos incrivelmente parecidos. Mas basta olhar para aquilo que não aparece em um exame médico para perceber que não existe ninguém igual a você. Sua história nunca aconteceu antes e nunca acontecerá de novo. Sua identidade é a única obra que jamais poderá ser reproduzida.
Quem sou eu?
Sou alguém que ainda está descobrindo quem é.
Mas já sei algumas coisas.
Sei que a curiosidade me move mais do que qualquer certeza. Que gosto de perguntas mais do que de respostas prontas. Que me encanto por ideias, por livros, por histórias e por pessoas que enxergam o mundo com profundidade.
Sei que não quero viver uma vida pequena. Quero aprender muito, conhecer muito, errar muito, mudar de ideia quantas vezes forem necessárias e continuar crescendo.
Talvez eu nunca consiga responder completamente quem sou.
Mas, se eu tiver que responder hoje, diria que sou alguém que acredita que a vida fica maior cada vez que aprendemos algo novo.
Sua vez! quem é você??
Obrigada por ler até aqui, te espero no próximo artigo!









sou um ser de luz vivendo uma experiência humana.